Martingale: aumentar exposição após perdas
A técnica original vem dos jogos de azar: dobrar a aposta após cada perda para que uma única vitória recupere tudo. Aplicada ao mercado, significa aumentar o tamanho da posição após operações perdedoras, apostando que a reversão virá.
Do ponto de vista matemático, a estratégia funciona sob uma premissa que nenhuma conta real satisfaz: capital infinito e ausência de limite de exposição. Com capital finito, existe sempre uma sequência de perdas suficientemente longa para esgotar a margem.
Um exemplo numérico ajuda: começando com 0,01 lote e dobrando a cada perda, na décima operação da sequência o volume seria de 5,12 lotes — mais de quinhentas vezes o inicial. Sequências de dez movimentos contrários não são raras em mercados em tendência.
Grid: múltiplas posições em níveis de preço
Uma grade abre ordens sucessivas em intervalos definidos de preço, acumulando posições à medida que o mercado se move contra a direção inicial. O objetivo é reduzir o preço médio e encerrar o conjunto com lucro em uma correção.
Em mercados laterais, o comportamento é excelente: o preço oscila dentro da grade e os ciclos se fecham com frequência. O problema aparece em movimentos direcionais prolongados, quando novos níveis continuam sendo abertos sem que a correção esperada aconteça.
Grid e martingale frequentemente aparecem combinados — grade com volumes crescentes —, o que soma as duas fontes de risco.
Por que a curva de capital parece tão boa
Ambas as técnicas produzem alta taxa de acerto aparente: a maioria das sequências termina em pequeno lucro. O problema não é a frequência do erro, é o tamanho dele quando ocorre.
Isso torna a avaliação por retorno acumulado enganosa. Enquanto o evento extremo não acontece, a curva sobe de forma suave e o risco embutido permanece invisível no gráfico. O drawdown de saldo pode continuar pequeno mesmo com posições muito negativas em aberto — por isso o drawdown de equity é indispensável na análise desses sistemas.
Onde a margem quebra
Com exposição crescente, o requisito de margem cresce junto. Quando o capital líquido cai abaixo do exigido, a corretora encerra posições automaticamente, geralmente no pior momento possível — o chamado stop out.
Fatores que aceleram esse cenário: alavancagem alta, capital pequeno, alargamento de spread em notícias, gaps de fim de semana e ausência de limite máximo de níveis abertos.
Avaliação equilibrada
Não é correto afirmar que todo sistema com grid ou martingale necessariamente vai quebrar. Existem implementações com limite rígido de níveis, stop loss agregado, controle de exposição total e critérios de encerramento do ciclo com perda — e essas restrições mudam substancialmente o perfil de risco.
O ponto central é outro: sistemas desse tipo trocam muitas vitórias pequenas por poucas perdas grandes. Quem os utiliza precisa aceitar explicitamente esse formato de distribuição, dimensionar capital para o cenário ruim e não avaliar o sistema apenas por meses tranquilos.
- Existe limite máximo de posições ou de níveis na grade?
- Existe stop loss agregado para o conjunto de posições?
- Qual foi o pior drawdown de equity, e não apenas de saldo?
- Qual exposição total o sistema atinge no pior cenário testado?
- O teste incluiu períodos de tendência forte e de alta volatilidade?
Alternativas estruturais
Tamanho de posição fixo ou proporcional ao risco definido, stop loss em todas as operações, limite de perda diário e ausência de aumento de posição perdedora são escolhas que reduzem a variância catastrófica, mesmo ao custo de curvas menos suaves e de mais perdas visíveis no extrato.
É uma troca consciente: aceitar perdas pequenas e frequentes para evitar o cenário em que um único evento apaga meses de resultado.